Domingo, 5 de Julho de 2009

Nós conheciamos ele.

Fui dar uma volta de bicicleta no centro como em qualquer outro dia. Passei pela Av. Ipiranga diante do cine Marabá e lembrei que ele foi reformado e só por curiosidade fui ver a programação. Entre os hollywood da vida estava lá o filme Jean Charles, de Henrique Goldman. Faltavam 10 minutos para começar e resolvi entrar.

Conheço a história dele. Muita gente conhece e lembra bem do drama que foi esse assassinato. E prefiro contar de algumas lembranças do que simplesmente falar do filme. O filme na verdade nem me pareceu tão bom assim, mas por conta da história ele fica muito sensível e logo no início parei de avaliar sua qualidade e fiquei tomado pelo drama do Jean. Mesmo sabendo o final do filme é uma história legitima, muito honesta e bastante real. Claro que o filme não diz ao pé da letra como ele vivia, mas a vida que Jean levava, ainda é a vida de milhares de brasileiros anônimos em muitos países distantes. Isso faz com que seja u filme importante. As argumentações que são levantadas alí merecem atenção, precisam ser ouvidas, tem que se fazer conhecer.

Estive em Londres entre setembro e dezembro de 2007. Tudo se resumiria numa palavra: foda. Não porque Londres é incrível e fantástica, ela pode ser, claro que pode, mas para muita gente ela é apenas foda, que te fode, que te consome, te detona, te usa, despreza. O modo como as autoridades britânicas lidaram com a morte de Jean comprova isso. Não sou eu ficando puto dizendo isso, mas apenas os fatos revelando o que eles são capazes de fazer. Acho que não preciso me dar ao trabalho de dizer que em todo lugar existem muitas pessoas legais, mas vamos apenas fazer um recorte desses fatos, sem entrar nos detalhes todos que a questão merece. Além do que fazer mea culpa por causa da Inglaterra seria uma piada de muito mal gosto.

A história do Jean, em parte, não é única. Ele como muitas outras pessoas gostaria de mudar, de melhorar e transformar sua vida. Ninguém migra porque acha legal ir comer o pão que o diabo amassou lá no fim do mundo. Ser imigrante normalmente é triste, duro, precisa deixar muita coisa longe e sem nenhuma garantia de que vai funcionar. Mas a história de Jean é também singular porque faz todo mundo sentir que aquilo poderia ter acontecido com qualquer um; e essa sensação é muito angustiante.

Eu já havia experimentado essa sensação. Lembro de Max e Dário nos piquetes em Buenos Aires e quando foram assassinados pela polícia argentina e lembro logo em seguida quando Carlo Giuliani foi assassinado pela policia italiana nas manifestações de Genova em 2001. Lembro de Brad Will quando os paramilitares mexicanos o mataram em Oaxaca em 2006. Todos eram ativistas lutando por aquilo que lhes pertencia. Sempre pensei nesses casos e ficava com a sensação que poderia ter sido eu. A única coisa que nos distinguia era a hora. Eu não estava naquele exato momento em que os mataram, mas poderia estar. Estava algumas horas ou minutos daquele lugar, alguns metros ou alguns kilometros deles, mas que diferença isso faz quando um tiro é disparado contra um amigo, um companheiro de luta?

O trem onde assassinaram Jean precisei pegar várias vezes. As casas ondem moram tantas pessoas eu ajudei a construir e reformar e lá estava um eletricista como ele. A merda daquela placa eu também segurei! Foda, Londres é foda! Talvez não seja tanto, mas pra mim foi. Para o Jean foi. E olha que no filme ele se revela bem animado de viver por lá, mas ainda assim... Eu gostaria que esse filme fosse apenas uma ficção, uma história triste que aconteceu longe, somente na cabeça de alguém, mas não é. Eu conheci esse cara. Não que tenhamos nos tornado grandes amigos, mas conheci todo mundo que estava naquela casa e naquela construção. Trabalhamos juntos. E também com todo mundo que chorava bem baixinho pra ninguém ouvir. Conheci aquele povo que ia pra aula de inglês gratuita no meio do dia nas escolas perto de Oxford St. porque ninguém tinha dinheiro para pagar ou porque precisava economizar. Quantas vezes fomos comer no indiano ou no chinês porque era a comida mais barata? Não que fosse ruim, mas a grana era sempre uma questão, sempre. Eu lembro de algumas coisas que faziamos para tentar melhorar o rendimento e lembro das mancadas que via uns fazerem com os outros achando que ninguém iria saber. Lembro de alguns que achavam incrível ser garçon, lavador de prato, entregador de pizza por lá, mas que não faria isso nem a pau aqui. Lembro de gente falando que o samba era o máximo, mas no Brasil não pararia numa roda de samba no boteco pé sujo de modo algum. Lembro bem daquele inglês escroto que não se dispunha nem a responder quando lhe perguntavam a hora. Lembro perfeitamente daquela cretina no bar olhando a gente como se fossemos menos que nada. Como poderia esquecer aquele outro dia em que o desgraçado do taxista quase atropelou a gente e ainda gritou tentando nos ofender dizendo “seus imigrantes de merda”? Melhor nem começar a falar dos trampos que não pagam nem o mínimo! 3 pounds a hora, dá pra acreditar?! Fazer o que? Ou era isso ou ia pra fila do sopão distribuido em alguns pontos pra galera que vivia nas ruas. Só para vocês saberem, o mínimo quando estavamos lá era de 5,50 pounds a hora. E aquela porra de tempo de outono e inverno? Caralho! Sempre com os pés molhados e a garoa fria na cara, ficando sem luz, sem sol as 3 horas da tarde. Agora eu entendo o humor inglês!

Bom, é por isso que eu quis chorar no filme quando matam o Jean. Aquela arma poderia ter sido disparada contra minha cabeça. Os disparos foram feitos contra alguém que eu conhecia. Sete tiros na cabeça. Mataram alguém que você conhecia! Porra! Merda do caralho! Mataram alguém que estava do meu lado no trem! E os desgraçados foram lá na casa dos pais dele oferecer um cheque para ajudar com as despesas. Forma bizarra de tentar calar a boca de alguém. Foda... Fiquei pensando como meus pais receberiam a notícia se me matassem assim também. Então se você quiser chorar antes, durante ou depois do filme, faça! Mataram alguém que você conhecia. Sua prima também presenciou tudo aquilo.

E essa história não acabou. Tem um monte de gente que conhecemos levando porrada agora mesmo em algum centro de detenção de imigrantes. Hoje mesmo mataram mais alguém porque parecia um terrorista. Fazem poucas horas que os oficiais de imigração separaram mais uma família. Foi hoje mesmo que o racismo e a xenofobia foram praticados sem ninguém ser responsabilizado por isso. Agora, agora mesmo tem alguém sendo humilhado por estar longe de sua casa. Olha bem porque no próximo minuto mais injustiça estará sendo feita. Escute bem os soluços de alguém pedindo pelo amor de Deus para pararem... Esta sentindo o cheiro? É melhor ignorar.

Caso você precise atravessar alguma fronteira escute isso que tenho para lhe dizer: olhe bem nos olhos de quem quer que esteja ali. É seu direito ir para onde vai! É seu direito caminhar por qualquer lugar desse planeta! Não sinta medo, ou não lhe dê muita atenção, porque são como cães treinados para farejar isso e te acusar. Não importa se você é inocente, isso é um mero detalhe para eles. Então tenha isso claro na sua cabeça: é seu direito andar por qualquer lugar e do modo que lhe parecer melhor!

Sabe, pensando melhor, o filme é bom sim. Poderia ser mais duro na minha opinião, mas o Jean não precisa disso. Como disse, gostaria que fosse diferente, mas não é. Entretanto isso não quer dizer que um dia não possa ser. Talvez a indignação seja menor um dia, mas até lá, como diz uma canção de Violeta Parra, só peço a Deus que não me deixe ser indiferente.Que um dia poderemos ser como o Pequeno Príncipe explorando mundos distantes e indo buscar o que nosso coração desejar.

A utopia que se faz nos tantos passos dados até agora. Que todas as história são dignas de serem contadas. Que o mundo que muitos pensam ter sido sempre assim, na verdade nem sempre foi, que mentiram pra gente! Que a história não acabou e como dizem os Zapatistas, a luta é como um círculo, que pode começar em qualquer ponto, mas nunca termina. Que se olharmos de perto, todos querem apenas um pouco de amor, para compartilhar, para ser útil e sonhar. Que o ódio pode ter nos feito começar, mas será o amor que nos fará parar.

Quando sai do cinema fiquei pensando em muitas coisas, com o peito apertado e refletindo também o que 10 minutos podem fazer com a gente. Eu nunca entro depois que a sessão começa. Ainda bem que entrei e me dei conta de certo modo que o ressentimento vai ser superado por nós e aqueles que fizeram tanto mal, como nos ensina a ética ubuntu, se darão conta que fazem esse mal primeiramente a si mesmos. A sabedoria mesmo sendo apenas um ideal, e no caso da história do Jean, com dor e tragédia, não será esquecida por que pode nos dizer coisas importantes de alguém que conhecemos.




Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Boas coisas dessa vida

Como é dever de todo ser humano, vamos compartilhar as coisas boas desse mundo. Rolou ontem e amanhã tem mais. O músico Jake Shimabukuro é uma havaiano que toca um instrumento de corda chamado Ukulele. Assista o vídeo e confira a habilidade do rapaz! Pois então, está aqui no Brasil participando do Festival Alma Surf, que acontece no prédio da Bienal, no Ibirapuera até dia 04/07.

Quase

Às vezes eu me sinto
como um papel molhado
que cai num vão

como bunda de mulher
que todo mundo
passa a mão

Às vezes eu me sinto
como um vidro
que jogaram pedra
... e se quebra

mas que fica ali
e não cai no chão
deixando uma terrível sensação

Às vezes eu me sinto como uma rosa
que enfrenta uma forte ventania
e fica se defendendo
de uma total agonia

Às vezes eu me sinto
como se estivesse presa
por um fio
como um navio
que não partiu

Ficou...

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009


O Velho E A Flor
Vinicius de Moraes

Por céus e mares eu andei
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber o que é o amor
Ninguém sabia me dizer
E eu já queria até morrer
Quando um velhinho com uma flor assim falou:

O amor é o carinho
É o espinho que não se vê em cada flor
É a vida quando
Chega sangrando
Aberta em pétalas de amor

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Um novo brasão para a cidade de São Paulo


encontrado aqui

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Do outro lado do mundo

Não vou falar muito não. Assista o vídeo e conheça uma dos caras mais legais do Japão. O Rafael está do outro lado do mundo faz um tempão e continua firme e forte naquilo que lhe faz tanto bem e batalhando para superar um monte de desafios. Conheci ele quando estive por lá, logo quando cheguei em 2007, e apesar do pouco tempo que a gente conviveu, ficou o respeito, o carinho e a afinidade pelo que há de melhor na música punk. Boa sorte aí Rafa!

Domingo, 28 de Junho de 2009

Nada

Apague a luz.
Faça o vídeo ficar em tela cheia.
Deixe tocar.
Nada será desperdiçado ou desprezado: nenhum som, ruído, imagem, tempo, nenhuma luz, nenhuma inspiração ou expiração, nenhum gesto. Nada.

Eu sou uma parte de tudo que encontrei.
Ortega y Gasset

Sábado, 27 de Junho de 2009

Luto

O Pedal Verde e a Bicicletada SP estão organizando um encontro de ciclistas, pedestres e moradores da cidade de São Paulo para conhecer pessoalmente o andamento das obras do projeto de ampliação da Marginal Tietê!!! Indo completamente na contramão do que seria o desenho estratégico de uma cidade sustentável, dentre os enormes impactos negativos que esta obra trás, damos destaque à:
  • eliminação de diversas árvores com mais de 50 anos de vida, que cumprem papel ecológico importantíssimo no equilíbrio climático e da poluição da marginal;
  • impermeabilização dos canteiros centrais que cuidam da manutenção de escoamento das nossas águas evitando enchentes;
  • impossibilitam a moradia para avifauna e outros seres vivos que cumprem papel ambiental na cidade;
  • no transplante de árvores que está sendo realizado, com certeza muitas não sobreviverão

Mesmo que hoje a Marginal do Rio Tietê esteja distante de ser como a sociedade deseja – um local de convivência em harmonia com uma fonte de vida – esse projeto assina o decreto de morte para que um dia possamos a voltar a viver juntos e de forma saudável junto do Rio Tietê, indo completamente na contramão de projetos realizados em diversas cidades pioneiras do mundo - um retrocesso de mais de 40 anos no pensamento humano!!!

Vamos nos unir neste domingo, levar nossos amigos e família num encontro para tomarmos conciência da dimensão do impacto desta obra, e refletir se realmente é isso que queremos para o futuro de nossa cidade!!!

Lembramos que é importante levar:

  • água para hidratação
  • lanche
  • máquina fotográfica para registrar a oportunidade histórica de estar em uma área verde que já está sendo rapidamente consumida
  • muita vontade de trocar conhecimentos e histórias com as pessoas participantes e refletir sobre os caminhos da nossa cidade


Pedal Verde para conhecer as obras de ampliação da Marginal Tietê

Domingo, 28/06/2009

1° Ponto de Encontro (10h): Pedalada saindo da Praça d@ Ciclista (Av. Paulista x Rua da Consolação)
Trajeto que será realizado pelas bicicletas a partir da praça

2° Ponto de Encontro (12h): Ponte das Bandeiras
Não é necessário ir de bicicleta, a estação de metrô mais próxima é a Tietê

Matérias sobre a ampliação da Marginal Tietê:

Blog do Milton Jung

CicloBR

Apocalipse Motorizado

****
Pedal Verde
Bicicletada SP

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Estupidez

O presidente Lula sancionou a Medida Provisória (MP)O 458 e vetou apenas um ponto da MP - também conhecida como “MP da Grilagem”. O artigo sete que foi vetado previa a transferência de terras para pessoas que não moram na região e para empresas que exploram indiretamente a área. Apesar de parlamentares, ministros e até mesmo o próprio presidente declarar que a MP favorece pequenos e médios posseiros da região, 72% de toda a área regularizada pela Medida é composta por latifúndios com mais de 1,5 hectares.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), Plínio de Arruda Sampaio, a MP favoreceu apenas o agronegócio.

“[Essa medida foi editada] para legalizar as terras griladas da Amazônia. Esses grileiros com os títulos regularizados vão vender essas terras para as grandes empresas nacionais e estrangeiras, que vão produzir soja, cana-de-açúcar, criação de gado e exploração de madeira. [Os pequenos proprietários] não conseguirão se manter em uma região dominada pelo agronegócio.”

Ao todo, 67 milhões de hectares de terra na Amazônia serão transferidos da União para particulares. Áreas com até 1,5 mil hectares, ocupadas até 1º de dezembro de 2004, não devem pagar ou pagarão um valor simbólico pelo imóvel. Isso representa apenas 28% da área total e compreende mais de 90% dos imóveis. Ocupantes de áreas maiores pagarão à União o valor de mercado para se manter no local.

Aline Scarso,

De São Paulo,

da Radioagência NP.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009


É preciso deixar que os outros tenham razão,
isso os consola por não terem outra coisa.


André Gide

foto by Zeynepinyeri

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Hoje é dia de festa! Dia de São João.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

O Pesquisionismo Dominante: o governo o produz, a imprensa o engole e o reproduz

por Paulo Ghiraldelli Jr

O Brasil descobriu a pesquisa. Infelizmente, não é research, mas survey. E o pior, em alguns casos o resultado vem da universidade, sob encomenda do governo, com cara de research, mas é survey. Em outras palavras: não fazemos mais investigação criteriosa, mas enquetes, e as apresentamos como pesquisa. E o pior ainda: os jornais estampam em suas manchetes o “resultado” do trabalho e, assim, eis que a cara do Brasil é desenhada como o que está na manchete. Na verdade, não é cara, é caricatura.

A mais recente pesquisa encomendada pelo MEC a um professor de contabilidade da USP é colocada no Estadão da seguinte forma: “Escola e dominada por preconceitos”. (Aqui). Pronto, surge uma verdade, aparece um rosto para a escola brasileira. A escola agora não é só fraca, é o berço do preconceito. E com isso, com tal dogmatismo e falta completa de reflexão, os números secos, elaborados a partir da pretensa exatidão e objetividade da matemática (uma matemática pobre, na maioria das vezes), a denúncia do preconceito se põe a serviço da produção de mais preconceito. Agora, os que se acham sem preconceitos, vão se afastar da escola: “nossa, lá é lugar do preconceito!” – assim reagirá uma parte da elite. Outra parte da população, ela própria na escola, irá dizer: “nossa, eu nem percebia que estava vivendo num lugar tão horrível”. E uma terceira dirá: “ah, eu bem que sabia, lá na minha sala de aula, fora eu, todo mundo é preconceituoso”.

O terrível nisso é a interpretação do pesquisador, o professor-contador José Afonso Mazzon: “A pesquisa mostra que o preconceito não é isolado. A sociedade é preconceituosa, logo a escola também será. Esses preconceitos são tão amplos e profundos que quase caracterizam a nossa cultura”. (Aqui). Ele foi pago (estou pasmo!) para fazer um serviço e concluiu isso aí! Ora, para dizer algo assim, alguém deveria ser pago?

Assim, as enquetes pagas a preço de ouro pelo MEC ou dizem banalidades, no melhor do casos, ou então geram a meia verdade, quase a mentira, e tem como fruto, na população e a partir da imprensa, a própria mentira.

-para continuar lendo aqui

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

dez mil

Começamos a semana com uma observação sobre esse espaço virtual. O Paladar de Palavra acaba de passar os 10000 acessos. Curioso fato que me faz pensar sobre as coisas todas que publico. Mesmo não escrevendo tanto como gostaria, me parece que de algum modo algumas das questões apresentadas demonstram interesse para um bocado de gente. Claro que muitos dos acessos foram acidentais, afinal quem da Sérvia ou Arábia Saudita estarei acompanhando esse blog em português? - podem ver lá no marcador que esses países fazem parte do time de acesso único aqui no Paladar - mas sei também que existem outros, que mesmo não se manifestando, passam por aqui de tempos em tempos. Isso é mesmo muito engraçado. Já encontrei amigos que vieram me falar de algo que estava aqui e eu nem lembrava mais sobre o assunto! Ficava tão intrigado que vinha buscar a postagem só para confirmar... O bom é que não me arrependi de nada desde o primeiro dia em que resolvi criar o blog que surgiu como uma necessidade para registrar os acontecimentos que me ocorriam fora do Brasil desde 2007. Interessante isso também se levarmos em consideração o fato do Paladar não ter uma pauta permanente, tema central ou política editorial definida que direcione os assuntos que aparecem. De todo modo continua sendo um espaço para compartilhar idéias, lugares e experiências que me tocam de algum modo. Assim dito, vamos em frente!
Abraços para tod@s!

Sábado, 20 de Junho de 2009

Vida e morte da festa do povo


por Luiz Vieira Lima Filho

São comemoradas, todos os meses de junho, as festas juninas. Antigamente, na roça ou na cidade, esse mês era bastante comemorado. Rojões, enormes rojões eram soltados e logo se via na noite estrelada, faíscas que logo iriam transformar-se em grande explosão. Os fogos de artifício, multicoloridos, enfeitavam maravilhosamente, parecendo fenômeno dos céus. Lembram-se, com saudades, dos chamados "mosquitinhos" e "busca-pés", que quando soltos pareciam ganhar vida e corriam atrás das pessoas ou elevavam-se ao céu, assim como um foguete espacial. Os "traques", brinquedo junino preferido pela criançada de antigamente, quando riscados no chão, estouravam como se fosses pipocas dentro da panela. Hoje, infelizmente, já não existe tamanha animação, pois a precaução e o progresso assim ditaram. Já não se vê mais as gigantescas fogueiras produzindo chamas como vulcão. A turma toda se reunia ao seu redor, abrigando-se da noite fria. O quentão saboroso, a batata doce assada, o churrasco, a pipoca, o pinhão, o amendoim, a queijada, a cocada e o milho assado, eram elementos que não poderiam faltar em uma boa festa junina. Que saudades sentimos dos enormes balões ricamente coloridos, que se elevavam graciosamente no espaço, parecendo levar mensagem de carinho, paz e amor! Com grande custo eram construídos, mas a seguir viria a recompensa. Que olhos não paravam e olhavam fixamente a tamanho deslumbramento? A meninada corria alegremente em grandes grupos atrás do esplendoroso balão, com a gana de pegá-lo, mas tal esforço era sem êxito, pois chegava a transpor de uma cidade para outra, parecendo um planeta solitário em meio de tamanha escuridão, navegando levemente na imensidão do céu.

Hoje, já não há tantas quadrilhas como dantes, e que quadrilhas! Era a festa sadia, a festa pura, a festa do povo.

Hoje, quase nada de toda essa maravilha existe, as festas juninas já não têm o mesmo espírito de outrora. Aqui em nossa cidade, pelo menos é uma prova de que as festas juninas estão pouco a pouco sucumbindo, se já não sucumbiram por inteiro, pois nem fogueiras como víamos, poucas, mas que nos faziam sentir com o espírito junino e era um consolo: toda a graça ainda não teria se findado. Este ano, nem essa ilusão teremos, pois o DOPS santista baixou decreto proibindo fogueiras nas ruas etc. Como já frisamos, o progresso e a precaução contra abusos determinam, praticamente, o fim das verdadeiras festas juninas, e hoje conhecemos tal festa apenas por nome ou somente em quermesses é que temos nossas festas juninas, a única coisa que restou e que nos dá ainda o prazer de saborear.

Veremos, pois, até quando perdurarão essas quermesses que nos dão um pouco de ilusão e satisfação.

*

Sim, festa junina na cidade, acabou-se o gosto. Agora, festa junina é na roça. A festa típica, sem abusos, sem perigos e nem tantas leis a proibi-las. Foi justamente com a inspiração elevada a tal lugar que apresentamos a seguir, em homenagem àquela gente, e para aqueles que apreciam tal festa...

São João na roça

Olha lá o balão
é a primeira recepção
pra saudar o São João

Vamos todos pra perto do fogueirão com toda animação, pois hoje é dia de festa; é dia de São João. Balão, balão, vá subindo para o céu infindo, leve a mensagem de alegria deste grande dia. Vem, cabocla bonita, pulemos juntos a fogueira, não precisa ter medo, oncê não vai se queimar, não; vou lhe contar um segredo: é meu amigo o São João.

Veja, a pipoca e o pinhão; amendoim e quentão, corra, peguemos nosso quinhão! A cocada tá quentinha e a paçoca gostosinha, vamos, coma, menininha!

Veja! Com grande emoção, soltemos o rojão. Tampe bem o ouvido, pois será grande o estampido! Pum! Lá se foi o rojão com tamanho barulhão, saudando São João. Óia lá! o casamento na roça vai ter início, mas antes ouça o padre em sua choça, comovente a fazer comício, e eis que surgem os noivos na carroça. O noivo Mané Pinguinha desembarca vestindo sua calça com remendo novo, fazendo pose e garbo; mas eis que desacerto, na calça jogam-lhe um ovo. Mané Pinguinha não se zanga com qualquer coisinha; levanta o braço pra pegar sua noivinha, Nhã Zefinha. Mas ao descer, eu nem quero ver que terrível acidente está pra acontecer. Nhã Zefinha o cheiro não agüentou, na tábua tropeçou e no chão se apatolou. Já refeitos do acidente, ele e ela sorridentes, alegres sobem ao altar. O padre, sorrindo, diz que eles só viverão para se amar, e nem uma garra de pinga nunca há-de os separar. Pro casamento festejar, uma quadrilha a turma vai dar. Corramos, minha gente, a quadrilha vai começar. Entremos, pessoal, vamos todos dançar e cantar. Corra, minha caboclinha, peguemos nosso lugar! Lá está o chefe contente, a pular e bradar: "Um, dois, três; minha gente, vamos todos trocar de par e logo, logo, debandar. Mas como tudo termina, a quadrilha teve fim. O dia de São João se acabou e a saudade ficou.

Vamos todos se acomodar pra de manhãzinha trabalhar, e outro São João, ansiosos esperar.

(Lima Filho, Luiz Vieira. "Vida e morte da festa do povo". A Tribuna. Santos, 21 de junho de 1967)

*encontrado no Jangada Brasil

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

curtas de todos os tipos

  • Poesia da melhor qualidade! VAMOS A LUTA de Sergio Vaz é pura paixão, é incendiária!
  • E a canalha não desiste. O Senado Federal está fazendo uma enquete sobre a redução da idade penal. Até o momento, a posição pela qual os defensores e defensoras de direitos humanos lutam está perdendo, vejam o resultado parcial: 49,64 % concordam com a redução para menos de 16 anos! 39,52 % concordam com a redução para 16 anos. apenas 10,82% não concordam com a redução. Participe aqui. A votação está no canto inferior direito da página do Senado.
  • Resposta de Em abril do ano passado, 113 autoproclamados "cidadãos anti-racistas" endereçaram uma carta ao presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes para fazer lobby contra o programa ProUni e a instituição de cotas raciais compensatórias em vestibulares para universidades estaduais. O movimento foi visivelmente inspirado nas teses de Ali Kamel, diretor de Jornalismo da Rede Globo e autor de Não Somos Racistas, livro de cabeceira de alguns dos piores porta-vozes da direita golpista na mídia brasileira."(...)
  • Desiertos antrópicos é mais que uma exposição de fotografia. Sofia Silva é uma argentina que aponta para cenários e modos de viver nos Estados Unidos com enorme sensibilidade para falar de algo bastante inusitado. Suas fotos nos mostram algo, mas sempre pensamos e sentimos para além do que vemos, como olhar para o estacionamento de uma supermercado e pensar que é uma prisão, ou ainda em subúrbios que parecem casas de bonecas. Veja aqui.
  • Continua no Centro de Cultura Social de são Paulo o ciclo de debates Pedagogia, sujeito e resistências: verdades do poder e poderes da verdade. Altamente recomendavél!Veja toda programação aqui
  • O conselho regional de psicologia promove debate sobre Psicologia e Justiça.O objetivo deste evento é ampliar o debate sobre os campos da psicologia na interface com a justiça, criar referências para orientações à categoria e conhecer o trabalho e prática dos psicólogos que atuam nestas áreas.Evento do CRP.
  • Música para o fim de semana de vocês, afinal que vida seria essa sem ritmo? Passeio Público é um "projeto desenvolvido pelo baterista Flávio Lazzarin e pelo trompetista Daniel Gralha pela fome mútua duma abordagem do improviso (tanto melódico/harmônico, qto estrutural), de certa inclinação "jazzística", fundida a timbres e ambientes de vertentes como trip-hop, nu-jazz, dubstep." No myspace.

Inté!